Artigo| Patrimônio cultural em risco permanente

Artigo| Patrimônio cultural em risco permanente

09 de julho de 2013 – Zero Hora

O descaso das autoridades com

um dos cartões postais de Porto Alegre

dá bem a marca da importância

que emprestam ao patrimônio cultural

SANDRA CUREAU*

Nas sociedades primitivas, a distribuição dos produtos agrícolas era feita a todos os integrantes dos grupos sociais, conforme vínculos e alianças que se formavam entre eles.

Os mercados surgiram na Idade Média, para permitir aos senhores feudais a venda das colheitas de suas terras. Eram semelhantes às feiras livres e não tinham locais ou datas fixos. Forneciam, além dos produtos do campo, utensílios comuns à vida diária.

Em 1137, na Baixa Idade Média, iniciou-se a construção do mercado dos Halles em Paris. Nessa época, o aumento demográfico e o renascimento do comércio na Europa, associados às inovações técnicas que permitiam maior produtividade do solo, geraram a necessidade da construção de prédios para comercialização dos produtos do campo.

Os mercados espalharam-se pelas cidades e são hoje, em todo o mundo, pontos de atração turística pela importância histórica que adquiriram, pelas características arquitetônicas e pela própria dinâmica e riqueza interior.

O Mercado Central de Porto Alegre, também conhecido como Mercado Público, foi construído em 1869, em estilo neoclássico. Estabelecimentos que nele se encontram, ou se encontraram um dia, como o restaurante Treviso _ famoso pelas canjas que oferecia nas madrugadas à boemia porto-alegrense e que foi testemunha de importantes acontecimentos históricos _, tornam-se parte da memória coletiva da cidade.

O incêndio da noite do último sábado, de grandes proporções, consumiu a maior parte do pavimento superior e o telhado antigo de cerâmica. Apesar da chuva, o fogo alastrou-se rapidamente e só foi controlado três horas depois. Especialistas estimam que outras partes do prédio podem ter ficado comprometidas.

Pode-se estimar, pelas redes sociais, especialmente pelas manifestações da juventude, o impacto que isso representou para os porto-alegrenses.

O tempo presente é uma construção social: lembrar-se é, em grande parte, não esquecer. Neste contexto, os bens patrimoniais servem como um apoio à memória, uma vez que o passado só existe porque se apoia nos objetos que lhe estão ligados.

Este é o quarto incêndio que atinge o prédio do Mercado. Os outros ocorreram em 1912, 1976 e 1979.  O comprovado descaso das autoridades com um dos cartões postais de Porto Alegre dá bem a marca da importância que emprestam ao patrimônio cultural, como testemunho da memória e da identidade do nosso povo.

* Vice-procuradora-geral da República e especialista em Direito do Patrimônio Cultural

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