Escolas públicas brasileiras: o “Julinho” ontem e hoje

 A reportagem especial do jornal Zero Hora (RS) deste domingo, 22/12/2013, – Lições da Turma 11F – sobre as condições atuais do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, trouxe-me à lembrança um filme dirigido por Lina Wertmuller, “Lo speriamo che me la cavo”, inspirado no livro homônimo de Marcello D´Orta, escritor italiano falecido em 19 de novembro passado. O título faz parte de uma gíria local, que significa, mais ou menos, “Não está fácil, mas acho que consigo me virar.”

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No filme, um professor, transferido por engano para uma escola pública em Corzano, província de Nápoles, é surpreendido, ao chegar, pelo desinteresse da diretora e pelas precárias condições do estabelecimento de ensino.

No primeiro dia de aula, poucas crianças se fazem presentes. Os alunos, em sua maioria muito pobres, não comparecem às aulas porque precisam trabalhar para ajudar os pais. Alguns trabalham à noite e dormem de dia. As meninas cuidam dos irmãos menores, enquanto as mães estão se ocupando do sustento da casa. Um garoto faz parte da Camorra, grupo mafioso urbano, nascido em Nápoles.

O Estado, a quem cumpria o dever de manter um ensino de qualidade, mostra-se ausente e ineficiente e o professor se vê na contingência de sair, de casa em casa, para buscar os alunos e tentar motivá-los a comparecer à escola.

Até o final da década de 1960, o Julinho ainda era considerado o Colégio Padrão do Estado do Rio Grande do Sul. Tive o privilégio de estudar nesta escola, de 1963 a 1965, e posso atribuir o gérmen de minha formação humanística e do discernimento ideológico aos meus professores do Julinho. Um quadro altamente qualificado, do qual fizeram parte, entre vários outros, Manoel André da Rocha, Décio Floriano, Godofredo de Fay Macedo, Emílio Ripoll.

Grandes figuras do cenário político e cultural brasileiro, bem como profissionais da melhor reputação em suas áreas de atuação, como Leonel de Moura Brizola e Paixão Côrtes, Moisés Velinho, Walmor Chagas, Ivete Brandalise, passaram por suas salas de aula. Para ingressar no colégio, o estudante devia se submeter a um concorrido e rigoroso exame de seleção. Igualmente, professores eram admitidos no quadro docente após aprovação em concurso específico para a escola, constituído por prova escrita, didática e de títulos.

Para quem estudou no Julinho nos anos 1960, quando a escola ainda mantinha seu antigo status, surge a pergunta: o que terá motivado essa situação de decadência tão bem descrita na reportagem de Zero Hora?

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Indubitavelmente, o advento do regime militar, em 1964, contribuiu, a princípio, para que tais condições principiassem a se instalar pouco a pouco, na medida em que demitiu professores e cerceou as atividades do Grêmio Estudantil – por tradição ligado ideologicamente à então chamada “esquerda” -, verdadeiro lugar de aprimoramento da consciência política dos estudantes.

Mas há que se considerar também o crescente desinteresse, nos últimos vinte anos, pela carreira do magistério, em níveis fundamental e médio, por força do absoluto desprestígio dessa profissão diante da baixa remuneração oferecida. Jovens recém egressos dos cursos de licenciatura nas diferentes áreas tratam de buscar cursos de mestrado e doutorado para alcançar outros patamares salariais. Assim, desapareceu a figura do professor(a) de carreira, o verdadeiro mestre-escola, tão prestigiado no passado, e que, pela experiência em sala de aula, tão bem sabia motivar o aprendizado em seus discípulos.

Posso dizer, sem medo de errar, que, no Colégio Estadual Júlio de Castilhos, adquiri os valores que ainda norteiam minha vida. Os alunos atuais dificilmente terão a mesma sorte. Professores desmotivados, salas de aula em precárias condições, falta de equipamentos básicos, tudo isso somado ao descaso de sucessivos governos, fazem com que tradicionais escolas públicas ocupem hoje os piores lugares no ranking  do ensino brasileiro.

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